Palavras do Gestor – Março 2020


Março de 2020, definitivamente, um mês para ser esquecido na história, não só em termos financeiros com em termos de saúde. O surto de Covid-19 que se iniciou na província de Wuhan, na China, virou epidemia que virou pandemia e que hoje eu considero uma Guerra Mundial, onde o inimigo é comum e invisível. A grande diferença de uma grande guerra é que não temos bombas, nem soldados, nem tanques, nem destruição de cidades, mas temos algo muito pior, o alto contágio da doença e algumas mortes. Os remédios para a cura ainda estão sendo testados e por enquanto não há prevenção. A maioria dos países decretaram o ‘lockdown, ou seja, a quarentena, que atenua a curva de disseminação, até os sistemas de saúde terem condições de atender os casos mais graves.

No mercado de ações, o Ibovespa desvalorizou-se 29,90%, fechando março com 73.019 pts. e acumula no ano -36,86%, podendo ser considerado o pior trimestre desde a criação do índice Bovespa, em 1968, Em relação aos pontos de fechamento no ano de 2020, o máximo foi em 23/1/20 (119.527 pts.) e o mínimo em 23/3 (63.569 pts.), o Ibovespa caiu 46,82%, podendo ser considerado o ‘Bear Market’ mais rápido da história, quando o mercado cai mais do que 20% dos níveis mais altos atingidos e com sentimento de pessimismo generalizado. O investidor estrangeiro continuou tirando dinheiro da bolsa, em março saiu R$ 24,2 bilhões e no ano acumula saque de R$ 64,33 bilhões.

Tivemos duas ocorrências distintas no mês que potencializou a queda da bolsa e a desvalorização do Real, primeiro a pandemia do Covid-19 e a segunda a crise do preço do petróleo. Com a saída da Rússia na reunião da OPEP no início de março, a Arábia Saudita decidiu aumentar a produção, gerando a maior queda da commodity em um só dia. No início do ano o petróleo na bolsa de NY atingiu $63,27/barril e logo após a Arábia Saudita anunciar que elevaria a produção, bateu no piso de $20.09/barril, menor valor em 18 anos. A próxima reunião ficou agendada para 9 de abril. Petrobras PN que atingiu o pico de R$ 31,24 no início do ano, no ‘intraday’, foi negociada  a R$ 10,85 no pior momento da crise, em 19/3, só no mês de março um dos principais papeis da B3, caiu 44,79%, levando muitos investidores a se desfazer do papel, seja por receio de cair mais, chamada de margem ou fazer liquidez. Assim como Petrobras, muitos outros papeis caíram quase 50% do pico, no início do ano.

O dólar comercial terminou março com uma valorização de 15,56%, sendo cotado a R$ 5.198 e no ano +28,98%. O BC tem atuado quase que diariamente para dar liquidez a moeda e mesmo assim, tem sido muito difícil segurar o ímpeto da desvalorização do real. Muito provavelmente, a divisão americana devera encontrar um patamar de acomodação em torno de R$ 4,80, R$1,00 acima do que imaginávamos para o dólar antes desta pandemia. Em compensação, o ouro brilhou como nunca, como sempre em épocas de crise; a valorização em março foi de 17,90% e no ano acumula um ganho de 33,23%, grande parte desta valorização no mercado interno, foi em função da alta do dólar, mas no mercado internacional o ouro também subiu.

A inflação medida pelo IGPM subiu 1,24%, puxada principalmente pelos alimentos, tanto processados, como in natura. No ano, o índice acumula alta de 1,69%. O IPCA deve apresentar um número bem próximo a zero, deixando o acumulado abaixo da meta, porem dentro do intervalo de tolerância.

Com a crise financeira mundial, os Bancos Centrais das principais economias decidiram afrouxar as políticas monetárias, conhecido como QE-Quantitative Easing reduzindo a taxa de juros e aumentando a liquidez do mercado, com compras maciças de títulos públicos. Nosso Banco Central, não fez diferente, na última reunião do COPOM reduziu em 50bp a taxa Selic, para 3,75%, a mais baixa da história e reduziu o compulsório dos bancos, aumentando a liquidez do sistema bancário.

Nos Estados Unidos, o FED trouxe os juros para um intervalo entre 0-0,25% e Trump pediu autorização para o Congresso liberar um pacote emergencial de U$ 2,2 trilhões para poder combater a crise gerada pela pandemia.

Paulo Guedes, juntamente com a equipe econômica vem soltado medidas para que o Governo consiga reduzir os efeitos do coronavírus na economia brasileira. Já foi postergado o pagamento de impostos, auxilio de R$ 600 por trabalhador informal, postergação da entrega da Declaração de Bens no Exterior e Declaração de Imposto de Renda, antecipação do 13º para aposentados e pensionistas em 2 parcelas, reforço do Bolsa família, postergação por 3 meses o pagamento do FGTS por parte das empresas, zerou a alíquota de importação de vários produtos médicos e hospitalares.

Além destas medidas, o Governo pediu para que o Congresso votasse o Estado de Calamidade Pública para que ele não precisasse cumprir a meta fiscal deste ano. Todas estas medidas elevarão o déficit público, como aconteceu na Europa pós-guerra e só foi corrigido a médio e longo prazo, com juros reais negativos. Se vier a ocorrer isto no Brasil, os ativos beneficiados serão ações e imóveis.

Fizemos um levantamento dos setores de renda variável que seriam mais e menos afetados com esta crise. Na tabela abaixo os setores estão classificados em ordem alfabética.

Revisaremos nossas premissas para o final do ano quanto ao PIB, Inflação, Juros, Dólar e Ibovespa, e no próximo relatório iremos divulgar.

Informações das Empresas

Obs: a maioria das informações relacionadas abaixo são anteriores ao processo do COVID-19. Nas próximas semanas teremos com maior clareza a situação de cada companhia.

BRFS: Em AGE programada para 27/04/2020, uma das propostas é a permanência de Pedro Parente por mais 2 anos (2022) para a presidência do Conselho de Administração.

Embraer: Com os últimos acontecimentos, a empresa negocia com as companhias aéreas o adiamento das entregas dos pedidos de aviões comerciais para 2021. A empresa em sua conferência no 4T19, disse não ter tido nenhum cancelamento de pedidos. Pelo acordo com a Boeing, a Embraer necessita separar a área comercial para cumprir com o acordo feito em 2019. Toda essa reestruturação afetou o resultado operacional com uma provisão de R$ 1,3 bilhão no 4º trimestre/2019.

Eneva x AES Tiete: Com a fusão surgirá a 2ª maior empresa de geradora de energia de capital privado no Brasil, com capacidade de 6,1 mil MW e receita de R$ 5 bilhões. Segundo dados de imprensa, a transação será ao redor de R$ 6,6 bilhões, sendo 60% pagos em ações da Eneva e 40% em dinheiro. A operação de troca será de 0,0461/ação ordinária ou preferencial da AES Tiete ou 0,2305/unit mais uma parcela em dinheiro de R$ 1,38/ação ordinária ou preferencial, ou seja, R$ 6,89/unit. Obs: Alguns minoritários da AES Tiete estão questionando a oferta de troca.

Histórico – Petróleo WTI – 06 meses

Hypera: Por montante de US$ 825 milhões, a Hypera adquiriu os ativos de medicamentos sem prescrição da japonesa Takeda, na América Latina. Considerando as últimas aquisições (Buscopan e Takeda), a empresa pode atingir a liderança do mercado.

JBSS: A companhia divulgou resultado abaixo das estimativas por conta de uma provisão de R$ 200 milhões para os possíveis descontos aos importadores de carne bovina da China. Segundo dados não confirmados, os importadores chineses solicitaram desconto de 30% às indústrias brasileiras.

Total: A Total E&P do Brasil integra o consórcio responsável pelo desenvolvimento do ativo, com participação de 20%, ao lado das parceiras Petrobras (operadora, com 40%), Shell (20%), China National Offshore Oil Corporation (10%) e China National Petroleum Corporation (10%). A petroleira francesa prevê investir entre US$ 600 milhões e US$ 700 milhões por ano na área de exploração e produção de gás e óleo no Brasil nos próximos 5 anos. Os principais ativos da empresa no Brasil são:

Venda de Veículos: Segundo dados da Fenabrave, em março 2020/2019, o volume de emplacamento de veículos caiu 21,78%, sendo o pior mês dos últimos 14 anos. No 1º trimestre 2020/2019 acumulou queda de 8,15%, sendo a pior queda desde os últimos 10 anos.

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